Para o empresário Alfredo Moreira Filho, fundador do Grupo Valore+, a falta de escola na zona rural baiana de meados do século passado não era um detalhe: era o obstáculo que decidia o futuro de uma família inteira. Nas fazendas sem professor, sem energia elétrica e sem estrada, alfabetizar uma criança dependia da boa vontade de algum adulto da casa. Continuar os estudos significava, quase sempre, mandá-la embora.
Esse movimento espalhou crianças do interior pelas casas de avós, tios e padrinhos nas cidades e ajudou a formar o Brasil urbano. Raramente, porém, ele é contado do ponto de vista de quem viveu cada mudança. Acompanhe as paradas de um desses percursos, do sul da Bahia ao Planalto Central, e repare como a decisão de estudar reaparece, com outra roupa, em escolhas que muita gente ainda enfrenta hoje.
A alfabetização em casa
Na roça, a escola possível era a mesa da cozinha. Mães com poucos anos de estudo ensinavam o abecê, a leitura e a tabuada aos filhos e, não raro, às crianças dos trabalhadores vizinhos. Esse ensino improvisado tinha limites claros. Ainda assim, criava a base que permitiria à criança não chegar à cidade em desvantagem completa diante dos colegas urbanos.
A experiência narrada por Alfredo Moreira ilustra o peso dessa etapa. Ele relata que, ao ingressar numa escola pública de Salvador, foi admitido diretamente no segundo ano do primário, graças ao que aprendera com a mãe, Dona Rosa, numa fazenda em Igrapiúna. Irmãos que seguiram o mesmo caminho também foram aprovados para séries adiantadas. A professora da mesa de jantar, em outras palavras, passou no teste.
A casa dos parentes na capital
O modelo mais acessível era o acolhimento familiar. De acordo com Alfredo Moreira Filho, a criança passava a morar com avós ou tios, frequentava a escola pública do bairro e aprendia, ao mesmo tempo, as regras de uma cidade grande. A solução resolvia o problema da vaga escolar, mas criava outro: a dependência de favores que podiam acabar a qualquer momento.
Em famílias numerosas, esse limite chegava cedo. Quando os parentes deixavam de ter espaço ou disposição para receber mais um sobrinho, restavam o internato com bolsa, a pensão paga com salário de adolescente ou a república. Nesse percurso, trabalhar deixava de ser escolha e virava condição para seguir estudando, como aconteceu com o garoto que, aos treze anos, começou como contínuo num banco de Salvador, ganhando meio salário mínimo.
O retorno que parece recuo
Uma etapa pouco lembrada nessas trajetórias é a volta. Sem curso superior na área desejada na própria capital e sem dinheiro para se manter em outra cidade, muitos jovens retornavam à casa dos pais depois do ensino médio. Na época, o gesto era visto como fracasso por quem estava de fora e, muitas vezes, pelo próprio jovem.
Conforme pondera Alfredo Moreira Filho, contudo, o período em Ituberá, dando aulas como professor substituto num colégio local, foi o que o manteve próximo dos livros até surgir a chance de prestar vestibular para agronomia em Viçosa, em Minas Gerais. O recuo aparente funcionou como tempo de preparação. É o tipo de etapa cujo valor só se percebe olhando para trás.
O diploma e a distância
Formado, o jovem da roça passava a ter algo que nenhum parente podia oferecer: uma profissão reconhecida em qualquer parte do país. Isso ajuda a explicar por que tantos engenheiros, professores e técnicos da mesma geração aceitaram trabalhar em regiões distantes, como a Amazônia, onde havia vagas abertas e poucos profissionais formados dispostos a ocupá-las.
Depois de Itacoatiara e Manaus, no Amazonas, e de Tucumã, no sul do Pará, o caminho levou o empresário a Brasília, cidade em que fixou residência e passou a empreender ao lado dos filhos. Olhando o conjunto das paradas, fica claro que a decisão tomada na mesa da cozinha de uma fazenda, a de que os filhos precisavam estudar, continuou produzindo efeitos décadas depois e a milhares de quilômetros dali.
