A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a FIFA iniciaram a construção de uma estratégia nacional para impulsionar o futebol feminino no Brasil. A proposta é estabelecer objetivos, indicadores e ações para os próximos quatro anos, período que inclui a realização da Copa do Mundo Feminina de 2027 em território brasileiro.
Mais do que preparar o país para receber o Mundial, o plano busca aproveitar a competição como ponto de partida para um desenvolvimento duradouro. A intenção é conectar diferentes etapas da modalidade, da iniciação esportiva ao futebol profissional, passando pela formação de atletas, treinadoras, clubes e estruturas de competição.
Segundo a CBF, a entidade apresentou a proposta à FIFA em julho de 2026. A primeira rodada prática de construção do documento ocorreu entre 28 de setembro e 2 de outubro, com workshops, reuniões técnicas e visitas a iniciativas ligadas ao futebol feminino.
Plano pretende ligar iniciação, base e profissionalização
A elaboração da estratégia ocorre em um momento em que o futebol feminino brasileiro reúne tradição esportiva e potencial de crescimento, mas ainda enfrenta diferenças no acesso à prática, na formação e na estrutura oferecida às jogadoras. Por isso, o planejamento deverá observar a modalidade como uma cadeia de desenvolvimento, e não apenas como uma sucessão de eventos.
Entre os temas centrais estão a ampliação das oportunidades para meninas, o fortalecimento das categorias de base, a qualificação de profissionais, a expansão das competições e o aumento da capacidade dos clubes e das federações. A proposta também considera a necessidade de criar caminhos mais consistentes entre os primeiros contatos com o esporte e a chegada ao futebol de alto rendimento.
A agenda brasileira está alinhada à estratégia da FIFA para o futebol feminino, que prevê ampliar a participação de meninas e mulheres, desenvolver estruturas esportivas e aumentar a visibilidade e a sustentabilidade comercial da modalidade. No caso do Brasil, o desafio adicional é transformar diretrizes gerais em ações capazes de alcançar diferentes regiões do país.
Visitas técnicas mostram desafios fora dos grandes centros
Como parte da agenda, representantes da CBF e da FIFA visitaram, em 30 de setembro, o Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes, onde treinam as equipes femininas do Fluminense, e o projeto social Daminhas da Bola, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
O projeto oferece atividades para 80 meninas entre 6 e 17 anos e mantém uma fila de espera de aproximadamente 200 pessoas. De acordo com o ge, a iniciativa também contribuiu para a formação de jogadoras que chegaram à Seleção Brasileira, como Tarciane, Luany e Kaylane.
Os números do Daminhas da Bola ajudam a dimensionar a procura existente por oportunidades de treinamento e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a fila de espera evidencia que projetos locais podem atender apenas parte da demanda quando não há uma rede mais ampla de equipamentos, profissionais e programas voltados ao futebol feminino.
A escolha de visitar uma iniciativa social e uma estrutura ligada a um clube permite observar dois níveis importantes da modalidade: a porta de entrada para meninas que desejam jogar e o ambiente de preparação de equipes organizadas. A conexão entre esses espaços é um dos pontos que podem determinar se a Copa de 2027 deixará resultados permanentes.
Legado da Copa de 2027 dependerá da execução
A realização do Mundial no Brasil oferece visibilidade internacional e pode acelerar investimentos, ampliar o interesse do público e fortalecer a presença do futebol feminino na agenda esportiva. No entanto, o impacto após a competição dependerá da capacidade de manter programas, competições e estruturas funcionando em diferentes partes do país.
A própria FIFA destacou que a dimensão territorial e a pluralidade brasileira exigem trabalho conjunto para que o crescimento não fique concentrado nos grandes centros. Essa preocupação coloca a execução no centro do debate: uma estratégia nacional precisará estabelecer prioridades claras, acompanhar resultados e adaptar ações às realidades regionais.
O documento ainda está em construção, e a primeira rodada de reuniões representa uma etapa inicial do processo. A expectativa é que o planejamento organize responsabilidades e indicadores para os anos que antecedem e sucedem a Copa do Mundo Feminina de 2027.
Para o futebol brasileiro, o principal teste será transformar a exposição proporcionada pelo Mundial em acesso regular ao esporte, formação qualificada e competições sustentáveis. Se conseguir articular projetos comunitários, clubes, federações e a Seleção Brasileira, a estratégia do futebol feminino poderá fazer da Copa não apenas uma grande competição em casa, mas também um marco de desenvolvimento para a modalidade.
